domingo, 30 de outubro de 2016

ensaio sobre a prisão

na frente da minha janela passa o asfalto
o concreto, seco e masculino, andarilho
dançam as faixas coloridas
e as plantas nas janelas
como um cartão postal urbano
na desaflição de um dormingo sono-lento
- não! o jogo de palavras veio depois do das imagens, então, já não era novidade antes
- caramba! a gente decide despirocar na semana pra empirocar no domingo - ou empiroca no domingo pra pegar embalo e empirocar na semana seguinte -
Zé na semana, rei no domingo - sensação comprada

no asfalto da frente da minha janela passam os frenesis
o concreto que resiste às fissuras
a secura do cimento macho-hipster que quer cobrir as faixas
e o tempo que tenta não deixar as flores se ensolararem
- segunda-feira frenética, terça-feira de azia, quarta-feira mal dormida, quinta-feira alérgica, sexta-feira de pensar que vai, sábado é ilusão

tudo passa na janela
não convido nada pra entrar

terça-feira, 4 de outubro de 2016

a carvão

laranja eletrônica
maçã informática
banana digital
salada de frutas nas nuvens

culinária a carvão

café virtual
cigarros eletrônicos
cachaça nanotec
vícios digitais

tratamentos a carvão

poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão

leitores clonados in the clound




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

vá pra porra!

assiduidade é a palavra chave
ora! vá pa porra!
e que leve a pontualidade junto
e os compromissos
e a necessidade de estar sempre de dieta
e o gosto de torcer pro time vencedor
e a obrigatoriedade de ter sempre algo pra fazer
só não leva essa vontade
de estar sempre em outro lugar
e o prazer de procrastinar

me deixa encher a cara
me deixa começar a frase com pronome oblíquo
e me deixa enforcar o banho
não me enche o saco com tanto formalismo
tantas formalidades

e agora deixa eu ir, que já estou atrasado
e não quero faltar

domingo, 11 de setembro de 2016

já é noite e não podemos nos omitir. mas também não precisamos tomar posição em tudo. há que se encontrar um meio terno, um salvo-conduto, uma assimilação por instabilidade. há que se organizar as coisas para agradar ao caos. alimentar o caos com a ordem das coisas, inclusive. esvaziar as palavras de significados e depois preenchê-las de volta, como quem faz cópia de segurança e depois formata e restaura um sistema. mas a restauração precisa ser instável. precisa ser escrita sem revisão, de forma corajosa, dinâmica e inesperada. há que se fazer tudo de uma vez, sem olhar pra trás e sem pensar se vai dar certo ou não. se bem que sempre dá certo, principalmente quando dá merda. mas já é noite. é noite e há que se desestabilizar tudo pra que o caos venha em explosão. pra que a ordem seja o jantar do caos. é noite. vamos dormir!

el corazón jodido

"el humo que te molesta
y el fuego que me quema a los dedos
mi compa, mi seguridad" - podría decir la canción
pero
"todo cambia", ha dicho un poeta común
pero ni todo cambia - digo yo
- algunas cosas quedan como son
siempre
y siempre
es como si fuera el centro del radio de una rueda
que gira, gira y gira
pero no llega al futuro, ni retorna
y que a nosotros hace estornudar
quemados, con el rostro roto
y el humo a molestar la nariz
y el corazón jodido

quinta-feira, 28 de julho de 2016

fotografia

na fotografia estão todos da família. é uma quantidade grande de gente. mãe, outra mãe, o pai biológico, o pai adotivo, a filha e seus dois irmãos, o filho e suas três irmãs. os menores, sentados nas costas do sofá de três lugares, enquanto os adolescentes estão nos braços do móvel, quatro dos adultos estão nos assentos e um mais engraçadinho deitado aos pés dos demais, fazendo pose com o cotovelo no chão e a mão escorando a têmpora esquerda. alguns copos e taças, dois gatos ou duas gatas nos colos dos pais. ao fundo, um quadro com a pintura em grafite com cada rosto da família, desde a bisavó, na idade de quando veio do Uruguai. o tapete branco, com algumas listras, demonstra que deve ter sido pisoteado bastante antes da foto ser tirada. inclusive, há uma generosa mancha de café próxima ao cotovelo do engraçadinho. a parede onde está o quadro também apresenta uma bela imagem abstrata formada pelos raios alaranjados de sol filtrados pela cortina, provavelmente de uma janela lateral.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

outro dia

sem ideias, partiu para procurar novos textos para escrever. percorreu o mundo inteiro na viagem à volta do quarto e viu sua loucura e sua lucidez andando juntas, de braços dados. foi dormir. acordou melhor e sem ideias.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

silêncio

lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. nada mais importante do que um silêncio de vez em quando. tocar uma música, ouvir uma música sendo tocada por alguém e deixar o som tomar conta do ambiente e, logo em seguida, um silêncio. e lá vamos nós.
cada nota com sua intensidade
cada ruído com seu significado
aliás, o som pode muita coisa
e lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. a cada instante em que o silêncio se manifesta, a cada momento em que o silêncio, tudo fica muito mais intenso, tudo significa mais. o silêncio pode mais.
e lá vamos nós

quinta-feira, 7 de julho de 2016

do tudo ao nada quase não há distância

lá vamos nós outra vez. e sempre outra e sempre outra e sempre outra vez, numa eterna busca ao que não se sabe e num eterno não encontrar. lá vamos. viajando em movimento elíptico, com eventuais retornos em linha reta, de forma que a matemática precise de um esforço grande para nos compreender e, ainda assim, chegando a grandes falhas. a matemática da angústia eterna pelo entendimento sutil. programas de computador não alcançam simular essa eterna busca, esse eterno desencontro. mas de vez enquando uma linha reta vem e leva tudo para quase o ponto inicial. e depois vem o movimento elíptico. e a matemática... e a física... e os programas de computador... e lá vamos nós outra vez.

sábado, 2 de julho de 2016

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há uma dureza constante
uma vontade de degenerar
pintar-se com a cor que ninguém tem
deslocar-se do conjunto para o unitário
desgarrar-se

dureza constante

insatisfação

fumaça constante

a dureza da fumaça

degenerar-se

uma vontade

quarta-feira, 29 de junho de 2016

vídeo para leitores

vídeo em plano-sequência:
trilha sonora: Pitágoras, d'Os Mutantes
plano geral
um homem negro de idade avançada está sentado num banco de praça, com a câmera posicionada às costas.
câmera se movimenta em travelling em direção ao homem, enquadrando-o com o banco, parando por alguns instantes para mover-se e posicionar-se em diagonal, quando retoma a aproximação até chegar ao enquadramento entre o quadril e a cabeça do homem, onde nota-se que está com olhar perdido em direção ao chão, como se olhasse sem ver os tornozelos das pessoas que passam no outro lado do passeio.
a câmera vai se afastando lentamente até retomar o plano geral, mas agora frontal ao homem. segue em movimento lateral, como se a praça estivesse em movimento, até chegar ao corpo de uma mulher negra, jovem, seminua, deitada no gramado em posição fetal. a imagem para na mulher por um tempo menor do que parou no homem e segue um pouco mais, até passar o final da praça, atravessar a rua e para para focar um prédio histórico em plano geral.
novo travelling e a imagem vai aproximando do prédio, onde destaca-se uma pixação: "essa matemática não nos serve"
a imagem vai escurecendo em fade-out.

terça-feira, 28 de junho de 2016

as fissuras da arte

colado com silvertape está a rotina, especialmente quando ela vem com o peso de um suspiro contínuo e cristaliza os líquidos que guardarão os quadros expostos no museu e têm fissuras capazes de derrubar as estruturas. nada é fragilidade além do mito, a não ser o próprio mito. além de frágil e fissurada, a estrutura que já foi líquida, foi cristalizada e agora é enjambrada, será um dia um punhado de confusões e confissões. e no fundo, no fundo, toda obra de arte é meio mausoléu e meio maternidade: somos mortos falando com outros mortos! e tudo, absolutamente tudo está colado com silvertape.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

improviso para quintana

escrevo a seco, sem pensar ou revisar
e chovo no molhado
é um inferno isso!
uma prisão de temas e estilos
que não se mancam
e que não se mandam

por isso, ao procurar renovar as coisas
venho nessa de não revisar
o máximo que sai e um erro ortográfico
uma escrita confusa

ainda assim, não me conformo
e escrevo a seco
mesmo chovendo no molhado
porque se vive a seco
escrevendo o que já tá escrito
- bebendo o que todos bebem
e comendo o que todos comem,
gritando como um possesso numa partida de futebol
e desconfiando que a minha alma seja mesmo dessa prisão
desse inferno!

domingo, 26 de junho de 2016

Decreto

Decreto editado na origem do ser humano, que pra alguns é na Gênesis e pra outros a explicação exata ainda causa questionamentos:
Eu, decididor eterno, fixo e inquestionável, independente do que as ciências vierem a descobrir e comprovar publicamente no futuro, decreto:
Cap. I. Quando a voz e a posição é do oprimido, estamos tratando de pregação ideológica;
Cap. II. Do contrário, quando estamos tentando abafar a voz do oprimido com ideias que datarem de séculos anteriores, estamos tratando de como as coisas são, sempre foram e sempre deverão ser, quer os marxistas queiram, quer não;
§ 1º. Ao contrário do que venha a comprovar a linguística sobre a modificação de sentido dos termos através dos tempos, a grafia e o significado primeiro da expressão é a que deve valer, por questão de decisão divina;
§ 2º. Nenhum esquerdista marxista terá autoridade de questionar o teor deste decreto. Quando tentar fazê-lo, deverá ser condenado a receber críticas de maneira superficial, sem citação a obras, nem indicações de leituras de forma objetiva.
Cap. III. Nenhuma fonte de citação poderá ser mais válida do que a seguinte expressão: "Basta uma procura no google..." que pode ser substituída a qualquer excerto retirado da página da wikipedia sobre o assunto.
Cap. IV. Fica proibida a existência de qualquer dúvida. Quem problematizar quaisquer temas abordados neste decreto será condenado ao tratamento dado aos marxistas, conforme o § 2º do Cap. II.
Este decreto entra em vigor na data de sua publicação, ficando quaisquer disposições contrárias futuras previamente revogadas.

sábado, 25 de junho de 2016

um vídeo


numa festa, uma tomada em plano geral
corta para uma tomada em que há duas pessoas conversando, sendo que a imagem está enquadrada somente no peito das personagens, sem mostrar os rostos
ambos guardam um do outro a distância de um palmo
durante alguns instantes, têm-se a impressão de que ambos irão se abraçar
mas depois de alguns segundos, afastam-se
som de tiro
ambos se encontram e se abraçam
ambos caem
a imagem escurece lentamente em fade-out
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