assiduidade é a palavra chave
ora! vá pa porra!
e que leve a pontualidade junto
e os compromissos
e a necessidade de estar sempre de dieta
e o gosto de torcer pro time vencedor
e a obrigatoriedade de ter sempre algo pra fazer
só não leva essa vontade
de estar sempre em outro lugar
e o prazer de procrastinar
me deixa encher a cara
me deixa começar a frase com pronome oblíquo
e me deixa enforcar o banho
não me enche o saco com tanto formalismo
tantas formalidades
e agora deixa eu ir, que já estou atrasado
e não quero faltar
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
domingo, 11 de setembro de 2016
já é noite e não podemos nos omitir. mas também não precisamos tomar posição em tudo. há que se encontrar um meio terno, um salvo-conduto, uma assimilação por instabilidade. há que se organizar as coisas para agradar ao caos. alimentar o caos com a ordem das coisas, inclusive. esvaziar as palavras de significados e depois preenchê-las de volta, como quem faz cópia de segurança e depois formata e restaura um sistema. mas a restauração precisa ser instável. precisa ser escrita sem revisão, de forma corajosa, dinâmica e inesperada. há que se fazer tudo de uma vez, sem olhar pra trás e sem pensar se vai dar certo ou não. se bem que sempre dá certo, principalmente quando dá merda. mas já é noite. é noite e há que se desestabilizar tudo pra que o caos venha em explosão. pra que a ordem seja o jantar do caos. é noite. vamos dormir!
el corazón jodido
"el humo que te molesta
y el fuego que me quema a los dedos
mi compa, mi seguridad" - podría decir la canción
pero
"todo cambia", ha dicho un poeta común
pero ni todo cambia - digo yo
- algunas cosas quedan como son
siempre
y siempre
es como si fuera el centro del radio de una rueda
que gira, gira y gira
pero no llega al futuro, ni retorna
y que a nosotros hace estornudar
quemados, con el rostro roto
y el humo a molestar la nariz
y el corazón jodido
y el fuego que me quema a los dedos
mi compa, mi seguridad" - podría decir la canción
pero
"todo cambia", ha dicho un poeta común
pero ni todo cambia - digo yo
- algunas cosas quedan como son
siempre
y siempre
es como si fuera el centro del radio de una rueda
que gira, gira y gira
pero no llega al futuro, ni retorna
y que a nosotros hace estornudar
quemados, con el rostro roto
y el humo a molestar la nariz
y el corazón jodido
quinta-feira, 28 de julho de 2016
fotografia
na fotografia estão todos da família. é uma quantidade grande de gente. mãe, outra mãe, o pai biológico, o pai adotivo, a filha e seus dois irmãos, o filho e suas três irmãs. os menores, sentados nas costas do sofá de três lugares, enquanto os adolescentes estão nos braços do móvel, quatro dos adultos estão nos assentos e um mais engraçadinho deitado aos pés dos demais, fazendo pose com o cotovelo no chão e a mão escorando a têmpora esquerda. alguns copos e taças, dois gatos ou duas gatas nos colos dos pais. ao fundo, um quadro com a pintura em grafite com cada rosto da família, desde a bisavó, na idade de quando veio do Uruguai. o tapete branco, com algumas listras, demonstra que deve ter sido pisoteado bastante antes da foto ser tirada. inclusive, há uma generosa mancha de café próxima ao cotovelo do engraçadinho. a parede onde está o quadro também apresenta uma bela imagem abstrata formada pelos raios alaranjados de sol filtrados pela cortina, provavelmente de uma janela lateral.
segunda-feira, 25 de julho de 2016
outro dia
sem ideias, partiu para procurar novos textos para escrever. percorreu o mundo inteiro na viagem à volta do quarto e viu sua loucura e sua lucidez andando juntas, de braços dados. foi dormir. acordou melhor e sem ideias.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
silêncio
lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. nada mais importante do que um silêncio de vez em quando. tocar uma música, ouvir uma música sendo tocada por alguém e deixar o som tomar conta do ambiente e, logo em seguida, um silêncio. e lá vamos nós.
cada nota com sua intensidade
cada ruído com seu significado
aliás, o som pode muita coisa
e lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. a cada instante em que o silêncio se manifesta, a cada momento em que o silêncio, tudo fica muito mais intenso, tudo significa mais. o silêncio pode mais.
e lá vamos nós
cada nota com sua intensidade
cada ruído com seu significado
aliás, o som pode muita coisa
e lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. a cada instante em que o silêncio se manifesta, a cada momento em que o silêncio, tudo fica muito mais intenso, tudo significa mais. o silêncio pode mais.
e lá vamos nós
quinta-feira, 7 de julho de 2016
do tudo ao nada quase não há distância
lá vamos nós outra vez. e sempre outra e sempre outra e sempre outra vez, numa eterna busca ao que não se sabe e num eterno não encontrar. lá vamos. viajando em movimento elíptico, com eventuais retornos em linha reta, de forma que a matemática precise de um esforço grande para nos compreender e, ainda assim, chegando a grandes falhas. a matemática da angústia eterna pelo entendimento sutil. programas de computador não alcançam simular essa eterna busca, esse eterno desencontro. mas de vez enquando uma linha reta vem e leva tudo para quase o ponto inicial. e depois vem o movimento elíptico. e a matemática... e a física... e os programas de computador... e lá vamos nós outra vez.
sábado, 2 de julho de 2016
---------
há uma dureza constante
uma vontade de degenerar
pintar-se com a cor que ninguém tem
deslocar-se do conjunto para o unitário
desgarrar-se
dureza constante
insatisfação
fumaça constante
a dureza da fumaça
degenerar-se
uma vontade
há
uma vontade de degenerar
pintar-se com a cor que ninguém tem
deslocar-se do conjunto para o unitário
desgarrar-se
dureza constante
insatisfação
fumaça constante
a dureza da fumaça
degenerar-se
uma vontade
há
quarta-feira, 29 de junho de 2016
vídeo para leitores
vídeo em plano-sequência:
trilha sonora: Pitágoras, d'Os Mutantes
plano geral
um homem negro de idade avançada está sentado num banco de praça, com a câmera posicionada às costas.
câmera se movimenta em travelling em direção ao homem, enquadrando-o com o banco, parando por alguns instantes para mover-se e posicionar-se em diagonal, quando retoma a aproximação até chegar ao enquadramento entre o quadril e a cabeça do homem, onde nota-se que está com olhar perdido em direção ao chão, como se olhasse sem ver os tornozelos das pessoas que passam no outro lado do passeio.
a câmera vai se afastando lentamente até retomar o plano geral, mas agora frontal ao homem. segue em movimento lateral, como se a praça estivesse em movimento, até chegar ao corpo de uma mulher negra, jovem, seminua, deitada no gramado em posição fetal. a imagem para na mulher por um tempo menor do que parou no homem e segue um pouco mais, até passar o final da praça, atravessar a rua e para para focar um prédio histórico em plano geral.
novo travelling e a imagem vai aproximando do prédio, onde destaca-se uma pixação: "essa matemática não nos serve"
a imagem vai escurecendo em fade-out.
trilha sonora: Pitágoras, d'Os Mutantes
plano geral
um homem negro de idade avançada está sentado num banco de praça, com a câmera posicionada às costas.
câmera se movimenta em travelling em direção ao homem, enquadrando-o com o banco, parando por alguns instantes para mover-se e posicionar-se em diagonal, quando retoma a aproximação até chegar ao enquadramento entre o quadril e a cabeça do homem, onde nota-se que está com olhar perdido em direção ao chão, como se olhasse sem ver os tornozelos das pessoas que passam no outro lado do passeio.
a câmera vai se afastando lentamente até retomar o plano geral, mas agora frontal ao homem. segue em movimento lateral, como se a praça estivesse em movimento, até chegar ao corpo de uma mulher negra, jovem, seminua, deitada no gramado em posição fetal. a imagem para na mulher por um tempo menor do que parou no homem e segue um pouco mais, até passar o final da praça, atravessar a rua e para para focar um prédio histórico em plano geral.
novo travelling e a imagem vai aproximando do prédio, onde destaca-se uma pixação: "essa matemática não nos serve"
a imagem vai escurecendo em fade-out.
terça-feira, 28 de junho de 2016
as fissuras da arte
colado com silvertape está a rotina, especialmente quando ela vem com o peso de um suspiro contínuo e cristaliza os líquidos que guardarão os quadros expostos no museu e têm fissuras capazes de derrubar as estruturas. nada é fragilidade além do mito, a não ser o próprio mito. além de frágil e fissurada, a estrutura que já foi líquida, foi cristalizada e agora é enjambrada, será um dia um punhado de confusões e confissões. e no fundo, no fundo, toda obra de arte é meio mausoléu e meio maternidade: somos mortos falando com outros mortos! e tudo, absolutamente tudo está colado com silvertape.
segunda-feira, 27 de junho de 2016
improviso para quintana
escrevo a seco, sem pensar ou revisar
e chovo no molhado
é um inferno isso!
uma prisão de temas e estilos
que não se mancam
e que não se mandam
por isso, ao procurar renovar as coisas
venho nessa de não revisar
o máximo que sai e um erro ortográfico
uma escrita confusa
ainda assim, não me conformo
e escrevo a seco
mesmo chovendo no molhado
porque se vive a seco
escrevendo o que já tá escrito
- bebendo o que todos bebem
e comendo o que todos comem,
gritando como um possesso numa partida de futebol
e desconfiando que a minha alma seja mesmo dessa prisão
desse inferno!
e chovo no molhado
é um inferno isso!
uma prisão de temas e estilos
que não se mancam
e que não se mandam
por isso, ao procurar renovar as coisas
venho nessa de não revisar
o máximo que sai e um erro ortográfico
uma escrita confusa
ainda assim, não me conformo
e escrevo a seco
mesmo chovendo no molhado
porque se vive a seco
escrevendo o que já tá escrito
- bebendo o que todos bebem
e comendo o que todos comem,
gritando como um possesso numa partida de futebol
e desconfiando que a minha alma seja mesmo dessa prisão
desse inferno!
domingo, 26 de junho de 2016
Decreto
Decreto editado na origem do ser humano, que pra alguns é na Gênesis e pra outros a explicação exata ainda causa questionamentos:
Eu, decididor eterno, fixo e inquestionável, independente do que as ciências vierem a descobrir e comprovar publicamente no futuro, decreto:
Cap. I. Quando a voz e a posição é do oprimido, estamos tratando de pregação ideológica;
Cap. II. Do contrário, quando estamos tentando abafar a voz do oprimido com ideias que datarem de séculos anteriores, estamos tratando de como as coisas são, sempre foram e sempre deverão ser, quer os marxistas queiram, quer não;
§ 1º. Ao contrário do que venha a comprovar a linguística sobre a modificação de sentido dos termos através dos tempos, a grafia e o significado primeiro da expressão é a que deve valer, por questão de decisão divina;
§ 2º. Nenhum esquerdista marxista terá autoridade de questionar o teor deste decreto. Quando tentar fazê-lo, deverá ser condenado a receber críticas de maneira superficial, sem citação a obras, nem indicações de leituras de forma objetiva.
Cap. III. Nenhuma fonte de citação poderá ser mais válida do que a seguinte expressão: "Basta uma procura no google..." que pode ser substituída a qualquer excerto retirado da página da wikipedia sobre o assunto.
Cap. IV. Fica proibida a existência de qualquer dúvida. Quem problematizar quaisquer temas abordados neste decreto será condenado ao tratamento dado aos marxistas, conforme o § 2º do Cap. II.
Este decreto entra em vigor na data de sua publicação, ficando quaisquer disposições contrárias futuras previamente revogadas.
sábado, 25 de junho de 2016
um vídeo
numa festa, uma tomada em plano geral
corta para uma tomada em que há duas pessoas conversando, sendo que a imagem está enquadrada somente no peito das personagens, sem mostrar os rostos
ambos guardam um do outro a distância de um palmo
durante alguns instantes, têm-se a impressão de que ambos irão se abraçar
mas depois de alguns segundos, afastam-se
som de tiro
ambos se encontram e se abraçam
ambos caem
a imagem escurece lentamente em fade-out
sexta-feira, 24 de junho de 2016
manifesto pelo estabelecimento do caos
tudo podemos nessa vida que nos é posta. absolutamente tudo. o único inconveniente é a falta de habilidade que temos pra lidar com as possibilidades e relacioná-las às vontades. fora isso, nada é impossível ou inviável. e é sempre bom lembrar que a vontade nos libertará. só a vontade é capaz de demonstrar o caminho que nos retirará da ordem, do amor frustrante e do progresso opressor. nada mais glorificante, mais libertador e mais motivador do que o amor febril e o caos interior. reprimi-los é tornar as pessoas menores. libertemo-nos pelas vontades! a força está nas vontades!
um louco e seus inúmeros
já me disseste certa feita
que eu estava endoidecendo
querendo essas coisas que não se deve querer
fugindo do mundo
fugindo de todo mundo
e eu acreditei
como acredito até hoje
só porque eu perco o controle
remonto
desmonto
e quebro
só porque ocupo
radicalizo
e caio da cama
e a cada dezesseis, eu preciso vinte
a cada figura, eu quero doce
a cada doze eu quero um
só porque eu estou mesmo endoidecendo
já faz tempo que fujo
e acredito
perco o controle
perco os doze e os doces
e como um pixel de cada vez
que eu estava endoidecendo
querendo essas coisas que não se deve querer
fugindo do mundo
fugindo de todo mundo
e eu acreditei
como acredito até hoje
só porque eu perco o controle
remonto
desmonto
e quebro
só porque ocupo
radicalizo
e caio da cama
e a cada dezesseis, eu preciso vinte
a cada figura, eu quero doce
a cada doze eu quero um
só porque eu estou mesmo endoidecendo
já faz tempo que fujo
e acredito
perco o controle
perco os doze e os doces
e como um pixel de cada vez
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