segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
frente em sonho
escrevo-te esta última carta para dizer-te que mudarei a forma de me comunicar. de agora em diante, tudo ocorrerá através dos sonhos. especialmente, naqueles que sonhamos acordados. ficará melhor assim: poderemos conversar melhor, explicarmos as coisas e até jurar sonho eterno. a escrita está se esgotando nela mesma e talvez isso seja notado pela prática com os sons e as imagens, com os movimentos, com as energias. são fases que a gente precisa passar, mas que acabam sendo superadas por outras. equivale-se aos movimentos artísticos ao longo dos anos: uma coisa já está desgastada e superada, daí vem outra pra estabelecer uma forma mais dinâmica, mais dialógica ao momento. então, a partir de agora, como o momento é outro e a linguagem está chegando ao limite, mudarei a postura e irei fazer performances nos teus sonhos, até que a realidade esteja mais alinhada ao espaço ficcional, até que não exista mais o ficcional.
um arroz para van gogh
enquanto vincent visitava suas obras no museu, meu arroz queimava. e assim, os dias vão passando.
o artista e sua obra jamais devem ser afastados um do outro, sob pena de alguém comer um arroz queimado ou de enfrentar a dureza desmedida da vida.
o artista também precisa tomar cuidado ao concentrar-se no outro, sob o mesmo risco de comer arroz queimado ou de enfrentar a dureza desmedida da vida.
o artista e sua obra jamais devem ser afastados um do outro, sob pena de alguém comer um arroz queimado ou de enfrentar a dureza desmedida da vida.
o artista também precisa tomar cuidado ao concentrar-se no outro, sob o mesmo risco de comer arroz queimado ou de enfrentar a dureza desmedida da vida.
sábado, 28 de janeiro de 2017
carta fechada
ao otário do outro blog
não fala mais. há uma certa tendência ao desastre a cada vez que tu fala. as reações sempre são cheias de significados e não estás na condição de interpretar nada. portanto, é melhor não falar. caso fale, acabará ouvindo o silêncio perturbador ou um monossilábico ruído. o temor, o tremor, a dor do estômago e do coração, além da insônia, tudo ficará mais intenso e insuportável. por isso, te peço: não fala! deita, adormece, come algo. faz qualquer coisa que te tire a possibilidade de falar. cala-te! falta em ti um senso do ridículo e a própria sensatez. falta em ti a noção de que estás apodrecendo e que, ao falar, estás jogando tuas entranhas decompostas pra outra pessoa. por isso, fica em silêncio. não escreve também. não te comunica. e tenha em mente que, de uma maneira ou de outra, ainda tens uma longa jornada pela frente em busca da sensatez perdida, da serenidade, da energia positiva e das amizades que se foram. volta-te a ti e ao teu silêncio. a posição fetal é a mais confortável numa hora dessas. fica na tua e não fala mais!
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
ataque
sai
para de fazer cera no museu
desenterra dessa covardia
e para
estátua
a valentia está em quem se detém
em quem observa
e deixa acontecer
e espera
mas a valentia só se completa
quando
depois de deter-se
de deixar acontecer e observar o acontecido
parte
vai com tudo
passa por cima feito um rolo compressor
nada de disfonia, disritmia ou dispneia
melhor é o silêncio e a parada cardiorrespiratória
pra depois gritar e acelerar o corpo
e atropelar tudo
melhor é atropelar tudo
para de fazer cera no museu
desenterra dessa covardia
e para
estátua
a valentia está em quem se detém
em quem observa
e deixa acontecer
e espera
mas a valentia só se completa
quando
depois de deter-se
de deixar acontecer e observar o acontecido
parte
vai com tudo
passa por cima feito um rolo compressor
nada de disfonia, disritmia ou dispneia
melhor é o silêncio e a parada cardiorrespiratória
pra depois gritar e acelerar o corpo
e atropelar tudo
melhor é atropelar tudo
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
luz e sombra na balança
há um antagonismo triste. tem quem brinque com sombras, como forma de fuga. não falo na formação daquelas imagenzinhas, que a gente mexe com a mão e faz a sombra parecer um animal. não se trata disso. é algo estranho. é mexer com aquelas coisas que ela obstrui da luz. a luminosidade entra por um buraco, vai lá e tapa com o silêncio. entra uma luzinha por uma fresta, bota o desejo atrás de uma folha de papel, que enfia na fenda. alguém acende uma luz, cobre tudo com o medo. enquanto isso, em outro lugar, há quem ateie fogo, que acende velas, bota lâmpadas mais e mais fortes, tentando construir um farol. e sempre há uma tola esperança de que as duas práticas entrem em equilíbrio algum dia.
domingo, 22 de janeiro de 2017
mensagem recebida
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
pedante, dicionarizado e político
colorido, multicor e policromático
fragmento, pedaço e partícula
sonho, notâmbulo e onírico
disperso, difuso e performático
rarefeito, sonolento e claustrofóbico
reflexivo, refletivo e inequívoco
ensimesmado, intimidado e lunático
canônico?
desnorteado, demente e excêntrico
apelativo, arrítmico e frenético
atonal, dissonante e dodecafônico
patético, atrapalhado e ruptura
dialético, pernóstico e retorno
habilitado, débil e dístico
laboral, explorado e anônimo
fragmento, pedaço e partícula
sonho, notâmbulo e onírico
disperso, difuso e performático
rarefeito, sonolento e claustrofóbico
reflexivo, refletivo e inequívoco
ensimesmado, intimidado e lunático
canônico?
desnorteado, demente e excêntrico
apelativo, arrítmico e frenético
atonal, dissonante e dodecafônico
patético, atrapalhado e ruptura
dialético, pernóstico e retorno
habilitado, débil e dístico
laboral, explorado e anônimo
El vidrio de la ventana y sus reflejos*
O que passa e o que não passa de um lado ao outro?
Quais são, se existem, os limites da transparência?
O que é olhar e o que é câmera?
O que é vidro e o que é lente?
O que é lente?
Nota do autor/tradutor: o título dessa fotografia, em português, é deforapradentroeprafora
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
a dureza do grão do feijão não pode com o tempo da água fervendo. o destino do feijão é servir de semente ou alimento. há espaço para brincadeiras, para piadas internas, mas também para a sabedoria, para a paciência e para fazer brotar novamente as plantas que têm folhas secas. é tempo de lidar com a memória e a rigidez alheia. é tempo de botar o feijão a ferver
domingo, 15 de janeiro de 2017
cozinhe feijão
paciência é um prato que se come depois. como quando se cozinha feijão numa frigideira. certamente levará mais tempo do que de costume, mas o resultado é bem mais gostoso. a paciência é um tempero poderoso, pois. se conseguires aguardar o tempo necessário, e ao delicioso prato souber aguardar, guerreira de toda vida sois.
sal, alho e orégano a gente deixa pra depois. primeiro, o cozimento, o resto vem de dois em dois.
sal, alho e orégano a gente deixa pra depois. primeiro, o cozimento, o resto vem de dois em dois.
sábado, 14 de janeiro de 2017
há espaço
...........................................
.........................................
........................................
+++++++++++++++++++++++++++
se dancei, não sei
mas gostaria de não dançar
prefiro ficar de par
a não ficar
(as rimas são fáceis nessas horas
as abandono, em nome de uma vida nova
em nome de uma gargalhada
e em nome da terapia)
ah, não há mais espaço pra poemas de amor
mas quem disse que escrevo poemas?
eu sofro palavras, sonho imagens concretas
amo a reunião e o pouso das mariposas
então, voltarei às cartas
borradas pela água da fruta que eu chupei
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se dancei, não sei
mas gostaria de não dançar
prefiro ficar de par
a não ficar
(as rimas são fáceis nessas horas
as abandono, em nome de uma vida nova
em nome de uma gargalhada
e em nome da terapia)
ah, não há mais espaço pra poemas de amor
mas quem disse que escrevo poemas?
eu sofro palavras, sonho imagens concretas
amo a reunião e o pouso das mariposas
então, voltarei às cartas
borradas pela água da fruta que eu chupei
dos códigos estéticos e dos lugares
queria fazer poesia. escrever um poema falando de uma casa de campo. falar que ela já foi vazia e que os espaços agora estão habitados. uma casa que mais parecia um pedaço de madeira vazio e que uns toques a transformaram em lar. queria escrever em morse, ou algo que o valha, pra renovar a linguagem, tal como a casa estivesse também renovada. a casa, que não teria sido feita pra alguém, após a transformação, assim como um poema, acaba perfeita pra esse alguém. queria transformar essa casa, tal como queria fazer poesia.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
digestão
apático aurículo, inalâmbrico ventrículo
o ventríloquo não quis saber de brincadeira
arrancou o coração do boneco e serviu-lhe numa sopa
e o dublê de pinóquio regozijou-se
- mais uma bela aventura do menino de coração de madeira - disse o carpinteiro
- não, meu amigo - disse o ventríloquo - é só uma forma de digerir as coisas quando estão ruins
dispneico, teve o pulmão também retirado
e servido num pote de sorvete
o boneco só conseguia mover a mandíbula
e degustar o sabor do próprio corpo
e foi assim, cada vez que um problema físico aparecia, lhe era servido o órgão doente como refeição
até o dia em que teve gastrite
o ventríloquo não quis saber de brincadeira
arrancou o coração do boneco e serviu-lhe numa sopa
e o dublê de pinóquio regozijou-se
- mais uma bela aventura do menino de coração de madeira - disse o carpinteiro
- não, meu amigo - disse o ventríloquo - é só uma forma de digerir as coisas quando estão ruins
dispneico, teve o pulmão também retirado
e servido num pote de sorvete
o boneco só conseguia mover a mandíbula
e degustar o sabor do próprio corpo
e foi assim, cada vez que um problema físico aparecia, lhe era servido o órgão doente como refeição
até o dia em que teve gastrite
auto ajuda
eu jamais fecho uma porta. meu medo de não conseguir sair, quando necessário, ou de que as pessoas não consigam entrar, quando gostaríamos, é infinitamente maior do que o de ser roubado. prefiro ficar de prontidão, ao aguardo da visita ou da vontade de sair por aí, a chavear tudo e passar o dia angustiado, emimesmado, na perspectiva raulseixiana. e sempre haverá um mate, um café, uma cervejinha e um banho quente, ou frio, uma cama acolhedora e uma música certeira pra esses e essas viajantes que habitam este e outros mundos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
canto dissonante
esse canto não é meu
mas esse canto é
a aparência desse canto
a julgar pela aparência desse canto
deve ser meu
mas não é
esse canto não é plágio
esse canto é
é um canto solitário
esse canto
é um canto dissonante
esse canto
é o canto da sereia
esse canto não é
esse canto não é teu
dele eu quero te tirar
a essência desse canto
é julgar pela aparência desse canto
que deve ser teu
mas não é
esse canto não é meu
mas esse canto é
mas esse canto é
a aparência desse canto
a julgar pela aparência desse canto
deve ser meu
mas não é
esse canto não é plágio
esse canto é
é um canto solitário
esse canto
é um canto dissonante
esse canto
é o canto da sereia
esse canto não é
esse canto não é teu
dele eu quero te tirar
a essência desse canto
é julgar pela aparência desse canto
que deve ser teu
mas não é
esse canto não é meu
mas esse canto é
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