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se dancei, não sei
mas gostaria de não dançar
prefiro ficar de par
a não ficar
(as rimas são fáceis nessas horas
as abandono, em nome de uma vida nova
em nome de uma gargalhada
e em nome da terapia)
ah, não há mais espaço pra poemas de amor
mas quem disse que escrevo poemas?
eu sofro palavras, sonho imagens concretas
amo a reunião e o pouso das mariposas
então, voltarei às cartas
borradas pela água da fruta que eu chupei
sábado, 14 de janeiro de 2017
dos códigos estéticos e dos lugares
queria fazer poesia. escrever um poema falando de uma casa de campo. falar que ela já foi vazia e que os espaços agora estão habitados. uma casa que mais parecia um pedaço de madeira vazio e que uns toques a transformaram em lar. queria escrever em morse, ou algo que o valha, pra renovar a linguagem, tal como a casa estivesse também renovada. a casa, que não teria sido feita pra alguém, após a transformação, assim como um poema, acaba perfeita pra esse alguém. queria transformar essa casa, tal como queria fazer poesia.
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
digestão
apático aurículo, inalâmbrico ventrículo
o ventríloquo não quis saber de brincadeira
arrancou o coração do boneco e serviu-lhe numa sopa
e o dublê de pinóquio regozijou-se
- mais uma bela aventura do menino de coração de madeira - disse o carpinteiro
- não, meu amigo - disse o ventríloquo - é só uma forma de digerir as coisas quando estão ruins
dispneico, teve o pulmão também retirado
e servido num pote de sorvete
o boneco só conseguia mover a mandíbula
e degustar o sabor do próprio corpo
e foi assim, cada vez que um problema físico aparecia, lhe era servido o órgão doente como refeição
até o dia em que teve gastrite
o ventríloquo não quis saber de brincadeira
arrancou o coração do boneco e serviu-lhe numa sopa
e o dublê de pinóquio regozijou-se
- mais uma bela aventura do menino de coração de madeira - disse o carpinteiro
- não, meu amigo - disse o ventríloquo - é só uma forma de digerir as coisas quando estão ruins
dispneico, teve o pulmão também retirado
e servido num pote de sorvete
o boneco só conseguia mover a mandíbula
e degustar o sabor do próprio corpo
e foi assim, cada vez que um problema físico aparecia, lhe era servido o órgão doente como refeição
até o dia em que teve gastrite
auto ajuda
eu jamais fecho uma porta. meu medo de não conseguir sair, quando necessário, ou de que as pessoas não consigam entrar, quando gostaríamos, é infinitamente maior do que o de ser roubado. prefiro ficar de prontidão, ao aguardo da visita ou da vontade de sair por aí, a chavear tudo e passar o dia angustiado, emimesmado, na perspectiva raulseixiana. e sempre haverá um mate, um café, uma cervejinha e um banho quente, ou frio, uma cama acolhedora e uma música certeira pra esses e essas viajantes que habitam este e outros mundos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
canto dissonante
esse canto não é meu
mas esse canto é
a aparência desse canto
a julgar pela aparência desse canto
deve ser meu
mas não é
esse canto não é plágio
esse canto é
é um canto solitário
esse canto
é um canto dissonante
esse canto
é o canto da sereia
esse canto não é
esse canto não é teu
dele eu quero te tirar
a essência desse canto
é julgar pela aparência desse canto
que deve ser teu
mas não é
esse canto não é meu
mas esse canto é
mas esse canto é
a aparência desse canto
a julgar pela aparência desse canto
deve ser meu
mas não é
esse canto não é plágio
esse canto é
é um canto solitário
esse canto
é um canto dissonante
esse canto
é o canto da sereia
esse canto não é
esse canto não é teu
dele eu quero te tirar
a essência desse canto
é julgar pela aparência desse canto
que deve ser teu
mas não é
esse canto não é meu
mas esse canto é
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
carreira solo
um lapso e engoli uma mosquinha
- justo quando quis me tornar vegetariano -
mas sou um réptil tátil e versátil
agora degusto a clarevidência
junto com hipóteses
e versos livres
- não tão livres quanto as energias mecânicas -
previ que vou engolir uma sacola
e me entupir de carboidratos e proteínas dos insetos
e umedecer com o inseticida
e retomar antigos projetos
e parar com eles novamente
melhor voltar ao meu canto
- justo quando quis me tornar vegetariano -
mas sou um réptil tátil e versátil
agora degusto a clarevidência
junto com hipóteses
e versos livres
- não tão livres quanto as energias mecânicas -
previ que vou engolir uma sacola
e me entupir de carboidratos e proteínas dos insetos
e umedecer com o inseticida
e retomar antigos projetos
e parar com eles novamente
melhor voltar ao meu canto
domingo, 1 de janeiro de 2017
olá, noite
látex precipitar
discípulo do nervo
espirro fatal
apelo sufocante
limites inexplicáveis
gônoda febril
ausência
ausência
ausência
prática reprimir
espanto neural
féretro do desejo
ímpeto sucumbir
limites
do
lo
ro
sos
ausência
discípulo do nervo
espirro fatal
apelo sufocante
limites inexplicáveis
gônoda febril
ausência
ausência
ausência
prática reprimir
espanto neural
féretro do desejo
ímpeto sucumbir
limites
do
lo
ro
sos
ausência
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
ensaio sobre as formas e as formas
quadrado laranja ultrapassa o retângulo verde-escuro. um cinza com uma esfera vai e volta. um retângulo cinza também vai e volta. um xadrez passa, para e segue. outros e outros retângulos. retângulos ambulantes transitam por um quadro de luz, numa distância que a preguiça impede o cálculo. sobre todos eles, uma estrutura oval se move de maneira que a preguiça também impede que se descreva com detalhes. e lá vai um esférico azul. e um outro retângulo, dessa vez um pouco esférico, preto. e outro e mais outro e mais outro. muito comuns esses retângulos que também são um pouco esféricos. um retângulo com um cilindro enfiado no oval. e outro e mais outro e mais outro. dois retângulos juntos. todos são números e são inúmeros. todos acreditando serem bem mais do que retângulos, esféricos e ovais. todos acreditando que estão indo. todos estão voltando. todos.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
aqueles dois
aqueles dois eram fodões
sabiam tudo
mesmo tendo 16
eram distintos, distantes e distópicos
já não mais acreditavam
que um dia os entenderiam
como eram
como eram
como eram?
eram malucos aqueles dois
tinham tudo
mesmo tendo 16
eram diatônicos, dissonantes e atonais
e já não mais necessitavam combinar
e sabiam o que eram
eram distintos, distantes e distópicos
aqueles dois
aqueles dois eram fodões
eram fodões aqueles dois
não tinham carro, não tinham dinheiro
mas tinham tudo que precisavam
e sabiam tudo um do outro
como eram aqueles dois
como aqueles dois eram fodões
sabiam tudo
mesmo tendo 16
eram distintos, distantes e distópicos
já não mais acreditavam
que um dia os entenderiam
como eram
como eram
como eram?
eram malucos aqueles dois
tinham tudo
mesmo tendo 16
eram diatônicos, dissonantes e atonais
e já não mais necessitavam combinar
e sabiam o que eram
eram distintos, distantes e distópicos
aqueles dois
aqueles dois eram fodões
eram fodões aqueles dois
não tinham carro, não tinham dinheiro
mas tinham tudo que precisavam
e sabiam tudo um do outro
como eram aqueles dois
como aqueles dois eram fodões
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
não escrevo poemas: vomito
é como um porre que tomo
e que de tão forte
com bebida tão ruim
que tudo resolve sair de uma vez
também não elevo a língua ao seu mais alto não-sei-o-quê
é simples e direto: comi algo estragado, vomitei; bebi demais, vomitei
por isso, deixei de comer carne
deixei de beber vinagre
e resolvi que iria tomar soda cáustica
arde, de fato, a garganta
e dá nojo e pânico em quem vê ou sente o cheiro
mas é isso e nada mais
eu não escrevo poemas: vomito
- argh!
é como um porre que tomo
e que de tão forte
com bebida tão ruim
que tudo resolve sair de uma vez
também não elevo a língua ao seu mais alto não-sei-o-quê
é simples e direto: comi algo estragado, vomitei; bebi demais, vomitei
por isso, deixei de comer carne
deixei de beber vinagre
e resolvi que iria tomar soda cáustica
arde, de fato, a garganta
e dá nojo e pânico em quem vê ou sente o cheiro
mas é isso e nada mais
eu não escrevo poemas: vomito
- argh!
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Minhas experiências musicais
Há vinte anos venho com a ideia dessa música martelando na minha cabeça. Aos poucos, foi saindo. Está bem próxima de estar acabada e assim que estiver com uma gravação de estúdio, vou postá-la novamente. "Valsa da despedida" é o título provisório.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Para I M
gagueia e engasga o motor apaixonado - são as borboletas no tanque - e pega de supetão. à sorte, é jogado o motorista num veículo com freios desgastados pelas freadas da história. vontade de acelerar até não dar mais, mas o combustível precisa ser cuidado pra durar todo o caminho. não precisa chegar. aliás, não quer. quer mesmo é seguir e seguir. procurar as vias abertas e percorrê-las. ter um automóvel ao lado, com estilo semelhante e a disposição de continuar o acompanhando, ora um na frente, ora outro, ora ao lado. e as borboletas se alvoroçam, em ambos. muitos outros veículos se aproximando, alguns dando sinal de luz em reverência, outros, bem poucos, baixando a luz em sinal de reprovação. o caminho segue até o ponto de os dois estacionarem lado a lado, as portas totalmente abertas, na mesma garagem cheia de bicicletinhas coloridas
sem ponto final
sem fim
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
saiu de casa passando pela porta da frente. sem rumo, caminhou nas ruas iluminadas pela lua cheia. não chegou a lugar algum, mas o trajeto fez pensar, ajudou a dar ideias e botou a pontuação em ordem, organizando o texto mental. depois de algumas horas, resolveu voltar pra casa, mas não encontrava o caminho de volta. esqueceu de levar o fio e as migalhas de pão. andou muito e parecia que se afastava cada vez mais do objetivo. tentou o norte, o sul, o leste, sempre em vão, porque não entendia as direções para escolher a que melhor serviria. decidiu sentar e admirar o céu. perdeu-se em pensamentos por horas. acreditava que o sol iria ajudar a encontrar o rumo ao amanhecer. ledo engano. o dia foi ainda de mais desorientação. depois de 24 horas de procura, acabou passando na frente da própria porta e não a reconheceu. não foi capaz de reconhecer a própria casa. seguiu caminhando, dessa vez tentando fazer o caminho oposto, mas já não lembrava da rosa nem dos ventos. tropeçou numa pedra e bateu a cabeça. uma figura meio humana meio demônio lhe apareceu ao despertar do desmaio e indicou uma direção. seguiu os conselhos, mas já era tarde demais. a lua agora já tinha outro formato e uma dor insuportável na cabeça veio para atormentar. agora vive por aí, à procura da besta que lhe indicou um caminho mais perdido que todos que havia tentado. cada vez que a lua enche, enche a cabeça com a esperança de voltar ao corpo perdido do lado de dentro da porta de casa.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás do ar condicionado é agoniante. pensar que isso tudo não passou ou que não passará em breve e perceber já não há harmonia nas conexões neurais e verbais é um peso. encher os pulmões de perfume não trará essa harmonia. plurissignificar uma expressão concreta e metaforizar tudo é um hábito poetizador falido que desaproxima o espelho e a multidão. glorificar a ascendência brutal e tratar a experiência bruta como matéria prima reservaria ao signo uma brecha para refazer tudo. é preciso refazer tudo. desde o começo. do zero. respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás agonia. pensar que isso tudo é dejeto e rejeito. encher os pulmões de um odor apodrecido. é melhor recomeçar do zero.
domingo, 11 de dezembro de 2016
aí vão as minhas últimas palavras: mais digno que a boca que profere é o gesto que aprisiona o sentido; o gosto da impotência é mais libertador que a possibilidade de tomar partido só pelo prazer de estar com a razão; a sinceridade não passa de uma representação convincente. jamais chegarei ao pó, mesmo que tenha sido feito dele. não é possível sobreviver às agonias da impossibilidade, a menos que se consiga convencer o contrário do contrário. e não, não estou falando em vitórias ou em objetivos: estou falando de objetos. estou falando que a linha perigosa que separa a eternidade da indisponibilidade do calendário é a mesma que junta o umbigo ao cóccix. a mesma força necessária às atividades profissionais é aquela que esmaga e sufoca. a vida é assim e por isso nos retiramos todos. por isso, não sobra ninguém.
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