sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Minhas experiências musicais


Há vinte anos venho com a ideia dessa música martelando na minha cabeça. Aos poucos, foi saindo. Está bem próxima de estar acabada e assim que estiver com uma gravação de estúdio, vou postá-la novamente. "Valsa da despedida" é o título provisório.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Para I M


gagueia e engasga o motor apaixonado - são as borboletas no tanque - e pega de supetão. à sorte, é jogado o motorista num veículo com freios desgastados pelas freadas da história. vontade de acelerar até não dar mais, mas o combustível precisa ser cuidado pra durar todo o caminho. não precisa chegar. aliás, não quer. quer mesmo é seguir e seguir. procurar as vias abertas e percorrê-las. ter um automóvel ao lado, com estilo semelhante e a disposição de continuar o acompanhando, ora um na frente, ora outro, ora ao lado. e as borboletas se alvoroçam, em ambos. muitos outros veículos se aproximando, alguns dando sinal de luz em reverência, outros, bem poucos, baixando a luz em sinal de reprovação. o caminho segue até o ponto de os dois estacionarem lado a lado, as portas totalmente abertas, na mesma garagem cheia de bicicletinhas coloridas
sem ponto final
sem fim

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

saiu de casa passando pela porta da frente. sem rumo, caminhou nas ruas iluminadas pela lua cheia. não chegou a lugar algum, mas o trajeto fez pensar, ajudou a dar ideias e botou a pontuação em ordem, organizando o texto mental. depois de algumas horas, resolveu voltar pra casa, mas não encontrava o caminho de volta. esqueceu de levar o fio e as migalhas de pão. andou muito e parecia que se afastava cada vez mais do objetivo. tentou o norte, o sul, o leste, sempre em vão, porque não entendia as direções para escolher a que melhor serviria. decidiu sentar e admirar o céu. perdeu-se em pensamentos por horas. acreditava que o sol iria ajudar a encontrar o rumo ao amanhecer. ledo engano. o dia foi ainda de mais desorientação. depois de 24 horas de procura, acabou passando na frente da própria porta e não a reconheceu. não foi capaz de reconhecer a própria casa. seguiu caminhando, dessa vez tentando fazer o caminho oposto, mas já não lembrava da rosa nem dos ventos. tropeçou numa pedra e bateu a cabeça. uma figura meio humana meio demônio lhe apareceu ao despertar do desmaio e indicou uma direção. seguiu os conselhos, mas já era tarde demais. a lua agora já tinha outro formato e uma dor insuportável na cabeça veio para atormentar. agora vive por aí, à procura da besta que lhe indicou um caminho mais perdido que todos que havia tentado. cada vez que a lua enche, enche a cabeça com a esperança de voltar ao corpo perdido do lado de dentro da porta de casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás do ar condicionado é agoniante. pensar que isso tudo não passou ou que não passará em breve e perceber já não há harmonia nas conexões neurais e verbais é um peso. encher os pulmões de perfume não trará essa harmonia. plurissignificar uma expressão concreta e metaforizar tudo é um hábito poetizador falido que desaproxima o espelho e a multidão. glorificar a ascendência brutal e tratar a experiência bruta como matéria prima reservaria ao signo uma brecha para refazer tudo. é preciso refazer tudo. desde o começo. do zero. respirar.fundo.sem.se.afogar.com.o.ar pesado do entorno e estontear por causa do gás agonia. pensar que isso tudo é dejeto e rejeito. encher os pulmões de um odor apodrecido. é melhor recomeçar do zero.

domingo, 11 de dezembro de 2016

aí vão as minhas últimas palavras: mais digno que a boca que profere é o gesto que aprisiona o sentido; o gosto da impotência é mais libertador que a possibilidade de tomar partido só pelo prazer de estar com a razão; a sinceridade não passa de uma representação convincente. jamais chegarei ao pó, mesmo que tenha sido feito dele. não é possível sobreviver às agonias da impossibilidade, a menos que se consiga convencer o contrário do contrário. e não, não estou falando em vitórias ou em objetivos: estou falando de objetos. estou falando que a linha perigosa que separa a eternidade da indisponibilidade do calendário é a mesma que junta o umbigo ao cóccix. a mesma força necessária às atividades profissionais é aquela que esmaga e sufoca. a vida é assim e por isso nos retiramos todos. por isso, não sobra ninguém.

domingo, 30 de outubro de 2016

ensaio sobre a prisão

na frente da minha janela passa o asfalto
o concreto, seco e masculino, andarilho
dançam as faixas coloridas
e as plantas nas janelas
como um cartão postal urbano
na desaflição de um dormingo sono-lento
- não! o jogo de palavras veio depois do das imagens, então, já não era novidade antes
- caramba! a gente decide despirocar na semana pra empirocar no domingo - ou empiroca no domingo pra pegar embalo e empirocar na semana seguinte -
Zé na semana, rei no domingo - sensação comprada

no asfalto da frente da minha janela passam os frenesis
o concreto que resiste às fissuras
a secura do cimento macho-hipster que quer cobrir as faixas
e o tempo que tenta não deixar as flores se ensolararem
- segunda-feira frenética, terça-feira de azia, quarta-feira mal dormida, quinta-feira alérgica, sexta-feira de pensar que vai, sábado é ilusão

tudo passa na janela
não convido nada pra entrar

terça-feira, 4 de outubro de 2016

a carvão

laranja eletrônica
maçã informática
banana digital
salada de frutas nas nuvens

culinária a carvão

café virtual
cigarros eletrônicos
cachaça nanotec
vícios digitais

tratamentos a carvão

poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão
poema a carvão

leitores clonados in the clound




sexta-feira, 16 de setembro de 2016

vá pra porra!

assiduidade é a palavra chave
ora! vá pa porra!
e que leve a pontualidade junto
e os compromissos
e a necessidade de estar sempre de dieta
e o gosto de torcer pro time vencedor
e a obrigatoriedade de ter sempre algo pra fazer
só não leva essa vontade
de estar sempre em outro lugar
e o prazer de procrastinar

me deixa encher a cara
me deixa começar a frase com pronome oblíquo
e me deixa enforcar o banho
não me enche o saco com tanto formalismo
tantas formalidades

e agora deixa eu ir, que já estou atrasado
e não quero faltar

domingo, 11 de setembro de 2016

já é noite e não podemos nos omitir. mas também não precisamos tomar posição em tudo. há que se encontrar um meio terno, um salvo-conduto, uma assimilação por instabilidade. há que se organizar as coisas para agradar ao caos. alimentar o caos com a ordem das coisas, inclusive. esvaziar as palavras de significados e depois preenchê-las de volta, como quem faz cópia de segurança e depois formata e restaura um sistema. mas a restauração precisa ser instável. precisa ser escrita sem revisão, de forma corajosa, dinâmica e inesperada. há que se fazer tudo de uma vez, sem olhar pra trás e sem pensar se vai dar certo ou não. se bem que sempre dá certo, principalmente quando dá merda. mas já é noite. é noite e há que se desestabilizar tudo pra que o caos venha em explosão. pra que a ordem seja o jantar do caos. é noite. vamos dormir!

el corazón jodido

"el humo que te molesta
y el fuego que me quema a los dedos
mi compa, mi seguridad" - podría decir la canción
pero
"todo cambia", ha dicho un poeta común
pero ni todo cambia - digo yo
- algunas cosas quedan como son
siempre
y siempre
es como si fuera el centro del radio de una rueda
que gira, gira y gira
pero no llega al futuro, ni retorna
y que a nosotros hace estornudar
quemados, con el rostro roto
y el humo a molestar la nariz
y el corazón jodido

quinta-feira, 28 de julho de 2016

fotografia

na fotografia estão todos da família. é uma quantidade grande de gente. mãe, outra mãe, o pai biológico, o pai adotivo, a filha e seus dois irmãos, o filho e suas três irmãs. os menores, sentados nas costas do sofá de três lugares, enquanto os adolescentes estão nos braços do móvel, quatro dos adultos estão nos assentos e um mais engraçadinho deitado aos pés dos demais, fazendo pose com o cotovelo no chão e a mão escorando a têmpora esquerda. alguns copos e taças, dois gatos ou duas gatas nos colos dos pais. ao fundo, um quadro com a pintura em grafite com cada rosto da família, desde a bisavó, na idade de quando veio do Uruguai. o tapete branco, com algumas listras, demonstra que deve ter sido pisoteado bastante antes da foto ser tirada. inclusive, há uma generosa mancha de café próxima ao cotovelo do engraçadinho. a parede onde está o quadro também apresenta uma bela imagem abstrata formada pelos raios alaranjados de sol filtrados pela cortina, provavelmente de uma janela lateral.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

outro dia

sem ideias, partiu para procurar novos textos para escrever. percorreu o mundo inteiro na viagem à volta do quarto e viu sua loucura e sua lucidez andando juntas, de braços dados. foi dormir. acordou melhor e sem ideias.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

silêncio

lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. nada mais importante do que um silêncio de vez em quando. tocar uma música, ouvir uma música sendo tocada por alguém e deixar o som tomar conta do ambiente e, logo em seguida, um silêncio. e lá vamos nós.
cada nota com sua intensidade
cada ruído com seu significado
aliás, o som pode muita coisa
e lá vamos nós ao silêncio. um silêncio. a cada instante em que o silêncio se manifesta, a cada momento em que o silêncio, tudo fica muito mais intenso, tudo significa mais. o silêncio pode mais.
e lá vamos nós

quinta-feira, 7 de julho de 2016

do tudo ao nada quase não há distância

lá vamos nós outra vez. e sempre outra e sempre outra e sempre outra vez, numa eterna busca ao que não se sabe e num eterno não encontrar. lá vamos. viajando em movimento elíptico, com eventuais retornos em linha reta, de forma que a matemática precise de um esforço grande para nos compreender e, ainda assim, chegando a grandes falhas. a matemática da angústia eterna pelo entendimento sutil. programas de computador não alcançam simular essa eterna busca, esse eterno desencontro. mas de vez enquando uma linha reta vem e leva tudo para quase o ponto inicial. e depois vem o movimento elíptico. e a matemática... e a física... e os programas de computador... e lá vamos nós outra vez.

sábado, 2 de julho de 2016

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há uma dureza constante
uma vontade de degenerar
pintar-se com a cor que ninguém tem
deslocar-se do conjunto para o unitário
desgarrar-se

dureza constante

insatisfação

fumaça constante

a dureza da fumaça

degenerar-se

uma vontade

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