segunda-feira, 25 de abril de 2016

a nova e necessária busca do novo de novo

o clichê é um chiclete que perdeu o sabor
de tanto mascarar e surrar amoral
do marcado fonográfico


frases desfeitas não enfeitam, mas enfrentam
como um fraseado musical de microtons
é mais valor que mais valia

é preciso abrir mão do de sempre
e é preciso cuspir fora o chiclete
porque é tudo farinha do mesmo asco

o clichê é um livro de etiquetas
que etiqueta quem o lê
chato da porra
que marca e merca
num fraseado como um
que mais vale pra quem valha-te

lugares incomuns transformam
havida como a vida é
como uma tarde na fruteira
ou comum mal secreto

terça-feira, 5 de abril de 2016

O homem tradicional


Atordoado pela própria obediência,
resignou-se à cátedra e à poça d'agua.
Cambaleado pelo trilho do trem,
comprometeu-se com a Gravidade.

Enformado pelas paredes da sala,
acatou a ordem da TV.


Viveu anos assim,
aceitando a moldura e a forma,
a referência e a instituição,
o sagrado e a tradição,
tudo igual aos antepassados,
como quem engole terra
até explodir de tédio.


Depois, cobrou que todas as pessoas fossem assim,
do mesmo jeito que o tinham obrigado a ser.



quarta-feira, 30 de março de 2016

Pior do que nunca


As pedras que quebram vidraças
estilhaçam em partes torpes
das tropas atrapalhadas
aquarteladas da distopia

êh, tradição da traição
êh, família em quadrilha
êh, impropriedade

Os padres que abrem vidraças
e as luzes filtradas pela estúpida nuvem de fumaça
que não entram na escuridão clichê
de um chiclete

êh, ambição da omissão
êh, unha na carne suja
êh, proselitismo

Os pedros que atravessam vidraças
estraçalham nos trapos sobre tapetes
mastigando vidro moído
e pensando que vai livrá-lo do livro

êh, atropelo
êh, unha na tradição
êh, consumercadismo

terça-feira, 29 de março de 2016

Tempo é espaço

o relógio difuso
diante de um vidro embaçado
da janela lateral
acompanhado do reflexo de um velho carvalho
uma parede descascada e com reboco esfarelento

no conta-gotas da calha furada
pingando sobre as latas de tinta seca quase vazias

afastando-se mais

as paredes ganham cores
ringidos dentro da casa caindo
o ruído e a ruína

crianças transparentes correm no quintal
terra barrenta
cheiro a esterco

em plano geral
chuva fina e rala próxima e a caminho
entre a casa e a silhueta dos morros ao fundo
explosão de um pixel
canto borrado

gosto de café






segunda-feira, 28 de março de 2016

Mimimi do ex

Lá se vai a lasciva
com sua atitude de mulher que gosta de ser
Lá se via lasciva
com sua postura de quem detém o poder sobre si mesma
Lá se vaia lasciva
com seu olhar de desdém à minha opinião
Lá se vai à lasciva
com sua boca encarnada e a decisão de aceitar ou não

Lá se vai a lasciva
Lasciva lá vai
Se lá vai lasciva
Lasciva lá se vai


domingo, 27 de março de 2016

Feliz páscoa, Alice

Acordei com um coelho cheirando meu nariz
tinha os olhos vermelhos
ao perceber que o percebi me percebendo
saiu correndo, mas sem pressa excessiva
como quem foge, mas querendo ser visto
tropecei
caí perto da porta por onde o orelhudo recém havia fugido
ao meu lado, docinhos de várias cores e sabores
e uma xícara de chá, onde estava escrito "beba-me!"
resolvi comer um dos doces coloridinhos - uma figura engraçada de um homem com uma cartola na cabeça
depois bebi
adormeci
Acordei com um coelho cheirando meu nariz
tinha os olhos vermelhos
ao perceber que o percebi me percebendo
saiu correndo, mas sem pressa excessiva
como quem foge, mas querendo ser visto
tropecei
caí perto da porta por onde o orelhudo recém havia fugido
ao meu lado, docinhos de várias cores e sabores
e uma xícara de chá, onde estava escrito "beba-me!"
resolvi comer um dos doces coloridinhos - uma figura engraçada de um homem com uma cartola na cabeça
depois bebi
adormeci
Acordei com um cheiro de coelho em meu nariz
tinha os olhos sorridentes
ao perceber que o percebi gargalhando
saiu dando voltas e mais voltas, me deixando tonto
fui atrás e tropecei
caí, também gargalhando, perto dos doces e de uma xícara de chá
onde se lia "sorria, você está se divertindo!"
e o coelho gargalhava e corria na minha volta
e eu tentava acompanhar
comendo docinhos
tomando chá
vi alguns antepassados que me convidavam pra brincar feito criança
que felicidade a minha!
o chão ficou gelatinoso
depois parecia uma esponja
e o coelho correndo na minha volta e gargalhando
e eu gargalhando junto com ele
de repente
tum!
com um golpe sofrido na nuca, senti um líquido vermelho escorrendo pelo pescoço
ouvi uns gritos: - como ousa ser feliz! agora vai aprender a respeitar às leis!
tum!
- isso é pra tu aprendê! vagabundo!
tum!
mais líquido vermelho escorrendo
apaguei
acordei num lugar estranho, sem coelho, mas com uma hiena
que gargalhava, enquanto comia carne em decomposição,
e que me gritava: - vagabundo! ser feliz não pode! como ousa não tê carro! não querê casa com piscina! vagabundo!
percebi que estava nu
com o corpo todo arranhado
cheirando mal
enquanto isso, vi outras hienas começarem a chegar
todas gargalhando e apontando:
- destino de vagabundo é esse mesmo!

sábado, 26 de março de 2016

Revolte-se

Suave é o sono, quando a gente dormiu pouco
enquanto aguarda a aguardente fazer efeito
feito um condenado a contar as horas

Suave é o sonho, quando a gente quase dorme
parece alucinógeno
parece fumaça branca

Suave é o som, quando a gente respira profundamente
quando faz o peito silbilar
ou disfarçar o ronco

Suave é viver na ilegalidade da palavra
onde o que se diz muitas vezes é contrário
e o verbo derruba o fato

Suave é o ronronar do gato
enquanto observa o pássaro pousar
e planeja a caça

Quanto custa o barato?


Quanto custa aquilo?
Quanto custa a chegar?
Lembra quanto custa?
Sabe quanto custa?
Deve custar quanto?
Figuras doces custam caro
Mas o barato sai caro
E o doce derrete
Tudo
Tudo derrete na boca
Na rua
Na chuva
Na chuva de prata que cai
Sem parar
Quanto custa?
Quanto custa essa chuva de prata?
Lambendo os beiços
Salivando pelo doce
Doce derretendo tudo
Virando chuva
O barato sai caro

sexta-feira, 25 de março de 2016

Plural é saber

cada vez que me cento
e vinte por mil
o assento do sanitário se transforma
a cada ver que o certo
é vinte por quinze
são dezesseis e vinte
e os verbos eu os confundo com os números
que numeram verbo e verbos
num ponto torto
cada vez que sento
é vinte por meu
há centos de insanos
transformados em números
em cada único
em vários pluri
nada é confuso
mas tudo é solidão e multidão
singular e plural
ordinário e indicativo
cada vez

Mal súbito

passei anos sofrendo de um mal súbito
que de repente veio chegando
e aos poucos me surpreendendo
cada dia um pouco mais
me preparei para o final que chegava
e enquanto ia piorando

quarta-feira, 23 de março de 2016

Ar

Falta ar
falta ar



falta

ar


há uma enorme bola pressionando
queimando
não deixando



ar

falta ar



houve outra época em que o ar faltava pra todo mundo

agora sumiu o ar novamente

falta
ar


faltar

sexta-feira, 4 de março de 2016

subjeito retilíneo

Acepilha, aplaina, emparelha
retira as rebarbas e deixa liso
é bem melhor que as coisas saiam sempre no padrão
padrão podre
acalma teu entusiasmo, não deixa sair
não mostra
disfarça
segura
alinha
acepilha, aplaina, emparelha
não formes paroxítonas, nem oxímoros
e lembra que o dinheiro não trás
apaga isso
não rebate
não mostra
faça a farça e disfarça
trate de retirar as rebarbas
alisa
desamasse
desamarrota
ajusta, mas não experimenta
não testa, aceita
não acolhe
não escolhe
não encolhe
não olhe
acepilha, aplaina, emparelha
mas não mexe
deixa como está
sempre foi assim
e assim sempre será.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Temporal desideia

O Eco ensina a reverberar honestamente mostrando como reverberam os delays desonestos que o subterrâneo de vez em quando... e a gente fica aqui, com cara de quem caiu da mula empacada, sedento por espaço, e acaba tentando voltar ao lombo da mula, mas é ela quem nos instrui no final das contas e acabamos por carregá-la nas costas e aceitamos que ela paste e poste suas fotos descabidas depois de mais uma aula sobre a memória do peixe e vamos seguindo, um passo de cada vez, rumo à trazeira do trem que dá ré.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Fui no Psicodália e não voltei de lá

Fui no Psicodália deste ano e não voltei de lá. Parece estranho o que escrevi no período anterior, pois há um estranhamento sintático aí. E antes que alguém queira fazer a brincadeirinha interna, não me chamo Wagner. Aliás, ninguém precisou gritar o meu nome. Mas o que descrevi é real e direto, uma vez que neste momento estou distante de Rio Negrinho/SC uns mil quilômetros, mas isso é meu corpo, meu raciocínio lógico e minha necessidade diária de tocar nas coisas. No que se remete à realidade concreta do que realmente vale na vida, no que diz respeito aos instintos e a objetividade cardíaca do amor, nisso eu fiquei. Não saio mais dos degraus do ambulatório, onde experimentei assistir um show num palco enquanto o som era passado por outra banda no outro. Fixei raízes pertinho da barraca, onde reencontrei amigos e amigas que não via desde outras existências, seja para tomar um gole, seja para a brasa do churrasco vegano, seja para o chimarrão na minha cuia uruguaia.
Fiz muito amor no Psicodália. Calculo que tenha feito amor com umas 6 mil pessoas, incluindo o pessoal que se apresentou e o que organizou tudo. E foi maravilhoso!
Também tive muitas experiências, as quais sempre despertavam minha vontade, mas não fazia por falta de oportunidade legal. A que compartilho aqui é a minha primeira vez com uma saia. Há tempos que tinha vontade de vestir algo que me deixasse sentindo mais livre e após encomendar o desenho para a afilhada e a costura para a mãe, acabei experimentando a maravilha que é poder sentir o arzinho por baixo da roupa e os cuidados especiais ao sentar numa escadaria. E valeu muito a pena. Recomendo, em especial, aos conterrâneos que pensam que dentro de uma bombacha se cria o bicho solto. Sou muito mais a saia nesse quesito, além de nos dar um pouquinho de noção do que passa uma mocinha que "precisa aprender a ter modos", como nosso machismo de cada dia tortura as mulheres desde a infância.
Ano passado, como choveu bastante durante o festival, acabei não desfrutando de tudo que gostaria. No entanto, este ano o tempo foi ensolarado e descobri que também não tem como fazer tudo. Por isso, tomei a decisão de fazer tudo, ainda que o Psicodália faça sua pausa para hibernação e só desperte lá pelo meio do ano para nos animar com a contagem regressiva e com as surpresas sobre as atrações, resolvi que ficarei lá. Não voltei e não voltarei de lá.
Quanto às vivências que tive, minhas impressões mais detalhadas e eticéteras, isso é coisa para um outro post, que pretendo fazer se e quando voltar. Também pretendo revisar este texto, já que no momento as minhas mãos tocam no teclado do notebook em Pelotas, RS, e eu estou na serra catarinense.
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